Alicia Alonso e seus fragrantes 90 em festival habanero
A dança habitou ontem à noite em Havana, ao conjuramento do 22 Festival Internacional de Ballet, cuja gala inaugural veio reverência unânime a um dos mitos sem os quais seria impossível escrever a história dessa arte.
Fonte
Prensa Latina
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A dança habitou ontem à noite em Havana, ao conjuramento do 22 Festival Internacional de Ballet, cuja gala inaugural veio reverência unânime a um dos mitos sem os quais seria impossível escrever a história dessa arte.
 
Tem 90 anos e ainda dança. Bastam-lhe suas mãos e seus braços, a leve ondulação de seu corpo em repouso, a eloquência do gesto, um giro da cabeça, a linha ainda pura de seu perfil em escorzo para que a dança flua dela como uma corrente contínua.
 
Alicia Alonso dança com todo o fragor de seu espírito incandescente, iluminada pelo resplendor interior que lhe permitiu suprir a perda gradual de visão desde o início de sua carreira.
 
Uma clarividência nascida "da percepção mais profunda de seu espírito", como a definiu seu conterrâneo, o poeta Miguel Barnet.
 
A dança a possui da cabeça aos pés. Aprendeu a reproduzi-la mentalmente, animá-la servindo dos dedos de ambas mãos para recrear o batido das pontas, a elevação a fragilidade, o voo.
 
A sala García Lorca do Grande Teatro habanero vibrou repleta de um público disposto a suprir-se de sua entrega, a render homenagem a sua vontade, sua coragem, à tenacidade com que soube alimentar uma escola e uma companhia cujo selo de identidade a fez reconhecida em todo mundo.
 
O presidente cubano, Raúl Castro, acompanhou-a no palco de honra do qual ela abriu simbolicamente as portas de um festival que atrai a cada dois anos, a esta ilha plantada no meio do Caribe, companhias e estrelas da dança de brilho universal.
 
Depois das palavras de elogio do Historiador da Cidade, Eusébio Leal, a cena iluminou-se com Impromptu Lecuona, uma coreografia que leva seu selo, consagrada ao falecido compositor Ernesto Lecuona, timbre de orgulho da memória musical cubana, pelo 115 aniversário de seu nascimento.
 
O vermelho e o negro dominando. Os corpos delicados, esbeltos, circundados pela luz. A música de Lecuona derramando-se. Duas peças suas, A comparsa e Malagueña, em um jogo de incitações. As sapatilhas de ponta e a sensualidade irmanadas. Lecuona e Alonso em uma sensata vibrante de cubania.
 
Depois ela emergiu da mirada múltipla do documentário que lhe dedicou Televisão Espanhola, o primeiro da série Imprescindíveis, sob o título Alicia Alonso, para que Giselle não morra. Um retrato traçado por quem seguiram sua trajetória, a obra consolidada junto a Fernando e frutificada na escola cubana e o Ballet Nacional de Cuba.
 
Uma Alicia humana e terrena, multiplicada nas gerações sucessivas que desfilaram em um relevo enriquecedor, o passo do futuro ante os olhos do auditório, a continuidade de uma tradição que precisou mal duas décadas para florescer -enquanto outras precisaram séculos-, e que o crítico inglês Arnold Haskell qualificou, nos anos 60, como milagre cubano.
 
Alicia no centro, ao final, em uma reverência de gratidão ante a ovação recebida e depois ela mesma reverenciando ao relevo forjado com seu magistério e sua inspiração, com sua vontade indômita.
 
Ela com seus 90 anos fragrantes, sem míngua alguma de sua vitalidade. Esses 90 aos que gosta de restar o zero para ficar só com o 9, a mesma idade que tinha quando começou a dançar. A dança habitou ontem à noite em Havana, como se ela começasse, menina ainda, a dançar. Não teve feitiço. A magia não fez falta, sobrava.