Che e a Prensa Latina
Quis a casualidade que convergissem em junho, mas de anos diferentes, as datas do natalício do mítico guerrilheiro argentino-cubano Ernesto Che Guevara e a criação da agência informativa latino-americana Prensa Latina, a PL.
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Prensa Latina
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Quis a casualidade que convergissem em junho, mas de anos diferentes, as datas do natalício do mítico guerrilheiro argentino-cubano Ernesto Che Guevara e a criação da agência informativa latino-americana Prensa Latina, a PL.

Che nasceu em 14 de junho de 1928 em Rosario, na Argentina, e a PL viu a luz no dia 16 desse mesmo mês, mas de 1959, a partir de uma ideia abraçada na Sierra Maestra por ele e pelo líder do Exército Rebelde, Fidel Castro.

Na direção do movimento armado falava-se já da necessidade de meios de comunicação de alcance internacional para enfrentar as campanhas midiáticas estrangeiras, que procuravam asfixiar a nascente Revolução Cubana.

Não bastavam, seguramente, os esforços do sinal da Rádio Rebelde (7-RR), surgida em plena luta nesse território montanhoso, onde os soldados faziam resistência aos ataques da ditadura de Fulgencio Batista.

O que, quiçá, deu o ponta pé inicial à ideia de fundar a PL foi o encontro, na Sierra Maestra, do jornalista argentino Jorge Ricardo Masetti com o Che e o líder do grupo armado.

Masetti veio à ilha como enviado da Rádio El Mundo, interessado em conhecer quem eram os já legendários jovens armados, aos quais teve que entrevistar em duas ocasiões sobre os mesmos temas.

"Adeus Che Masetti, mas parece-me que vamos nos encontrar de novo. Vão caçá-lo", disse em tom de brincadeira o Comandante Chefe do Exército Rebelde ao novo amigo argentino.

E é que o visitante, quando desceu da Sierra depois de cumprir seu interesse jornalístico, se viu obrigado a subir outra vez porque suas reportagens não chegaram a sua emissora em Buenos Aires.

Mas, quando Masetti finalmente desce a maior cordilheira de Cuba, já levava com ele sua própria ideia de promover uma rebelião na Argentina, porque tinha compreendido que também estava precisando de uma.

PL ACENDE OS TELETIPOS

A recente Revolução ainda não chegava a seus primeiros seis meses de vida, quando a PL acendeu pela primeira vez os teletipos e transmitiu um telegrama noticioso, com Masetti como diretor fundador.

Antes tinha lhe correspondido organizar a chamada por Fidel Castro "Operação Verdade", para fazer frente de batalha novamente aos impérios da comunicação e que seria uma agência para dizer a verdade com o ponto de vista desta região.

A novidade e a essência que dava origem à PL fez com que estivessem presentes em sua fundação jornalistas latino-americanos como o colombiano Gabriel García Márquez e o argentino Rodolfo Walsh, que se tornaram escritores.

Entre a lista de comunicadores que deram vida aos teletipos de Havana e de outros territórios estiveram os argentinos Aroldo Wall, Ernesto Jaquetti, Alfredo Muñoz Unsain, conhecido como Chango, Rogelio García Lupo e Carlos Aguirre; o mexicano Armando Rodríguez Suárez e o venezuelano Eleazar Díaz Rangel.

Vestindo verde oliveira, com suas botas de Comandante, Che chegava muitas noites à agência para visitar seu compatriota e dizem que quando não vinha, telefonava para perguntar sobre os últimos acontecimentos do mundo.

Também percorria a sala de teletipos, chegou a visitar os novos transmissores instalados na cidade e inclusive publicou através da PL um e outro artigo.

Um deles, difundido na Gaceta de Colombia, foi o intitulado por ele "Japão, uma potência que é colônia", com a assinatura de "Ernesto (Che) Guevara. Distribuído pela "Prensa Latina", onde faz uma análise socioeconômica do país do Sol Nascente.

O texto inicia com uma resenha de sua viagem ao Japão, na qual compartilha suas considerações a respeito de uma sociedade industrializada e seus avanços, mas assegura que esse país é "a demonstração de que não há bem mais desejável que a total soberania nacional".

Gabriel Molina, jornalista fundador da PL, conta que o Che trabalhou como jornalista em uma agência no México e sabia bem como funcionava, inclusive chegou a ser correspondente em uns jogos pan-americanos.

Por isso, quando surge este meio latino-americano, o faz com um salário decente para seus integrantes, não só em comparação com Cuba mas também com a região.

Pouco se conhece que, em seu início, esta foi chamada de "Agência Latina" e foi o mítico guerrilheiro quem sugeriu a palavra Prensa para a nomeá-la então Prensa Latina.

Conchita Dumois, viúva de Masetti e que exercia como sua secretária, contou que as visitas do guerrilheiro à PL eram assíduas e em muitos casos prolongadas.

Encerravam-se horas a conversar no escritório de Masetti em profundos debates que temperavam-se à fumaça de um puro cubano e um gole de mate.

"Posso imaginar o que conversavam", disse Dumois, ao indicar que, ao que parece, falavam de como fazer uma revolução para mudar a então triste realidade de seu país.

Em outubro de 1967, a Prensa Latina tinha conseguido superar os prognósticos de que não sobreviveria por muito tempo e se batia com os impérios telegráficos quando chegou a notícia da morte do Che.

Há 54 anos de sua criação, a PL se disseminou com mais de 20 correspondentes no mundo para mostrar a outra cara de uma realidade da qual não falam os grandes monopólios, um ideal também do Comandante Guevara que segue marcando seu caminho.