A ampliação do escudo anti-mísseis estadunidense na Europa e a mudança de tom de Moscou no caso sírio põem hoje em perigo de extinção o reacomodo ("reset") das relações entre Rússia e Estados Unidos.
Apesar das afirmações do presidente estadunidense, Barack Obama, de que a Casa Branca manterá o curso do "reset" com qualquer que seja o futuro inquilino do Kremlin, a realidade no terreno se desenvolve em sentido contrário.
Os reiterados chamados da Rússia a que Washington e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) aceitem um compromisso vinculante de que a construção do escudo anti-mísseis europeu não será uma ameaça para este país, segue sem contar com respostas concretas.
Mas enquanto Moscou esperava por uma explicação convincente, os Estados Unidos demonstraram que eram verdadeiras as revelações aparecidas em Wikileaks, depois da cúpula do conselho Rússia-OTAN de Lisboa, em novembro de 2010, de que a OTAN preparava um cerco à Rússia.
O Pentágono, longe de iniciar negociações com Moscou para uma defesa européia mancomunada, na prática acelerou mais a construção do escudo antimisil em torno da Rússia.
Assim, a Casa Branca assinou acordos, por ora, com Romênia, Polônia, Bulgária, Noruega, Turquia e Espanha para estabelecer tanto rampas de mísseis interceptores e estações de radares, como navios para perto de sua costa com igual propósito.
Um dos pontos que em junho de 2009 permitiu a Obama e ao mandatário russo, Dmitri Medvedev, falar do reacomodo dos laços bilaterais foi o anúncio do primeiro da suspensão do programa de desenvolvimento do sistema anti-mísseis na Polônia e República Checa.
Isso deu passo à assinatura do Tratado de Limitação e Redução de Armas Estratégicas (START-3), em abril de 2010, depois de meses de práticas, nas quais um dos temas culminantes foi a necessária vinculação das armas estratégicas ofensivas com as defensivas.
Precisamente, a ruptura do equilíbrio entre esses dois tipos de armamentos -os defensivos incluem os elementos anti-foguetes- constitui um dos argumentos pelos quais as partes podem anunciar o abandono do START-3, algo que a Rússia recorda com frequência.
Os planos acelerados de instalar os mecanismos do escudo ant-mísseis não só nas tradicionais rampas de lançamento em terra, como também em navios, complica ainda mais esse assunto.
O Pentágono desenvolve o alcance dos foguetes navais SM-3, que em sua versão original eram de curto e médio alcance, para ampliar seu raio de ação a uns três mil quilômetros, suficientes para do Mar Mediterrâneo silenciar a artilharia estratégica russa.
O aparecimento, ademais, de bases aéreas estadunidenses na Polônia, dotadas de caça-bombardeiros F-16, com capacidade para portar armas estratégicas, aumentam a preocupação e alarme de Moscou, comentam especialistas citados pela imprensa local.
No meio dessas circunstâncias, Medvedev anuncia a candidatura do primeiro-ministro, Vladimir Putin, para as presidenciais de março de 2012, um passo visto aqui como o iminente regresso deste último ao Kremlin num terceiro mandato.
Putin sempre foi crítico da livre interpretação da OTAN da resolução 1973 do Conselho de Segurança (CS) sobre a Líbia que permitiu ao bloco, sob o pretexto de proteger à população civil, bombardear esse país e forçar a saída de Muammar Al Gadafi.
A Rússia, ao lado da China, absteve-se na votação da resolução 1973, mas parece que está disposta a evitar novas livres interpretações de documentos da ONU no caso da Síria.
Ainda que Medvedev tenha afirmado que o governo de Damasco deve pôr em prática as anunciadas reformas políticas ou caso contrário considerar a necessidade de se retirar, esclareceu que tal decisão depende e corresponde só ao povo sírio.
Nem os Estados Unidos nem outras nações da OTAN devem decidir como se resolvem os problemas internos na nação levantina, afirmou o chefe de Estado russo ao explicar o veto de seu país, junto ao da China, a uma nova resolução do CS sobre Síria.
De nenhuma forma permitiremos que o referido Conselho seja utilizado para aprovar resoluções que conduzam à repetição na Síria do palco da Líbia, sublinhou o mandatário russo.
O Ocidente recusou introduzir na resolução um esclarecimento chamado a descartar o uso da força do exterior contra Damasco e essa resposta não deixa nenhuma dúvida das verdadeiras intenções da mencionada iniciativa, comentou Medvedev.
Ademais, Rússia e China impulsionam sua própria resolução sobre a Síria para alentar o diálogo interno e uma saída política à crise.
A mudança da posição do Kremlin no caso da Síria, muito diferente ao da Líbia, aparece em momentos em que a Rússia também ganha posições econômicas no contexto do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).
Enquanto isso ocorre, os Estados Unidos e a Europa enfrentam sérios desafios com sintomas cada vez mais palpáveis de uma nova recessão.
Dessa forma, o possível regresso de Putin à presidência, o desenvolvimento do sistema de defesa anti-mísseis europeu, sem a Rússia, e a diferença de posições no tema sírio parecem pôr em aperto a política de "reset" dos laços entre Washington e Moscou.
